o que nunca e em lugar nenhum aconteceu
hoje, enquanto estava sentada no vaso fazendo xixi, olhei pro meu pé e vi algo brilhar no chinelo. era uma luazinha (ou "luinha"?) do carnaval. sim, daquele glitter que você disse ter vindo "direto do satanás". e eu me senti tal qual o crítico gastronômico do filme Ratatouille, que ao provar um bocadinho da comida feita pelo rato (spoiler, gente, o cozinheiro era um rato) é transportado para outro momento da vida dele.
ver aquela luazinha do satanás me transportou direto pros dias de frestinha de real que vivemos.
é curioso, pois embora nos últimos tempos a sua existência tenha sido constantemente evocada, dado o momento planejamento de viagem que inclui o seu cep, minhas memórias afetivas estavam bem quietinhas. acho que o combo trabalho demais, paciência de menos, vida prática batendo na porta e tentativa de reconexão, acabou desligando algum mecanismo emocional por aqui.
mas, a luazinha me quebrou. ela jogou na minha cara o óbvio: estaremos no mesmo cep, em breve, e essa viagem que já foi imaginada em outro momento, com outros propósitos, agora está cada vez mais real... e mais distante das fantasias de outrora.
normalmente, os textos daqui fazem links com músicas, mas a veia acadêmica vai reinar soberana, pois me deparei - naquele meu momento trabalho demais - com uma afirmação do Vigotski que explica tanto do que vivi/vivemos:
“a atividade criadora da imaginação encontra-se em dependência direta da riqueza e variedade da experiência prévia da pessoa, pois essa experiência oferece o material, a partir do qual são criadas as construções da fantasia” (Vigotski, 1930/2025, p. 45).
Vigotski sabia que o que alimenta a imaginação é a realidade. as frestinhas de real vividas foram o material vasto e variado que construíram a nossa fantasia.
a luazinha faz parte da experiência prévia, daquele teste de compatibilidade, da descoberta do encaixe da vida ordinária. a luazinha esteve lá, é material e é prova do que aconteceu... e olhar pra ela de novo me fez reabrir a portinha da fantasia.
fantasia. você algumas vezes falou sobre ela. sobre a realidade não ser páreo para ela.
se a realidade não é páreo para a fantasia, mas a fantasia se constrói pelas experiências da realidade... agora que temos mais materiais para criar, a fantasia cresce? ou morre?
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